terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Danças em tempo de guerra

Não sendo uma tradução literal, Belle & Sebastian apresentam "Girls in Peacetime Want to Dance" num ano que se inicia com grandes avanços na cena indie, e poucos na guerra dos mundos. E é precisamente neste contexto que a banda irlandesa criou a necessidade (ou não) e apresenta o seu nono álbum de estúdio.

A banda evoluiu desde Tigermilk, a formação original sofreu alterações com entradas e saídas de membros, mas a sonoridade mantém-se fiel e genuína, reconhecível na voz de Stuart Murdoch, que apesar da sua doença crónica insiste no sonho de manter viva a banda que construiu.

Diretos e eficazes, desenvolveram temas dançáveis, é certo, mas que fogem do enquadramento que gostávamos em Belle & Sebastian. Abrem com "Nobody's Empire" que, sendo um exercício de métrica, apela ao sofrimento que Murdoch vive, recorrendo a palavras duras, frases difíceis, terminando de forma estridente - He told to me to leave that vision of hell to the dying Oh to the dying. Também a capa do álbum, faz o apelo a uma muletas e a um estado "doença". Elege-se como uma verdadeira capa, uma vez que é a primeira vez que não usa a típica fotografia monocromática ainda que continue na linha das capas eternas dos Smiths.

O destaque vai para o single de apresentação "The Party Line" teve e tem o impacto desejado, remetendo para uma sonoridade já conhecida em outras bandas. Mais dançável e com mais eletrónica, desenvolve-se em ritmos da indie pop agora assumidos pela banda. Salienta-se a produção de Ben H. Allen III (Animal Collective e Washed Out) que em muito contribuiu para o recurso a cow bells e outros instrumentos de ritmos novos, que estão na moda, e desconhecidos até então na linha de pensamento dos Belle & Sebastian. Não tenho duvidas que este é o tema que melhor funciona ao vivo, e que catapultou o álbum para a cena indie pop, de outra forma teria estado mais apagado e esquecido.


Outros temas desenvolvem-se em torno de diferentes escapatórias, se por um lado "The Cat With The Cream" remete-nos para infâncias perdidas em cavaleiros e guerreiros onde gatos criam magia, por outro "Perfect Couples" transporta-nos para um caribe de movimentos suaves baseado em vidas conjugais. A grande perturbação do álbum reside precisamente na ligação entre temas que não existe ou é forçada.

Claramente esta é uma tentativa de mudança de direção da banda, recorrendo a outras sonoridades mais festivas e animadas. Talvez o caminho seja este, tenho duvidas quanto à sua aplicação ou necessidade numa banda como Belle & Sebastian.

Belle & Sebastian estarão a provas ao vivo no Primavera Sound 2015, no Porto.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Björk e o seu novo ensaio: Vulnicura

Björk regressa do submundo onde esteve durante 4 anos, e apresenta de forma forçada o seu nono álbum “Vulnicura”. O lançamento que estava em preparação para Março de 2015, acabou por ser antecipado para Janeiro, uma vez que foi disponibilizado de forma ilegal na internet. Ainda assim, no dia seguinte ao lançamento digital (20 de Janeiro de 2015), liderou tabelas de vendas em pelo menos 36 países.

A islandesa habitou-nos a uma introspeção forçada quando os seus álbuns tocam, lidera uma espécie de estado hipnótico assente em trabalhos com sons e palavras que nos transportam para realidades extra-humanas, mas mais reais do que a própria Björk. Tenho para mim, que nunca vamos conseguir sentir a música de Björk exatamente da forma como a própria a cria, é um estado de nirvana que nunca conseguiremos assimilar. Talvez seja por isso que Björk é tão amada e odiada, tão transparente e tão opaca.

Sabemos agora, que este álbum apela à perceção do fim da união/relação, reproduzindo uma experiência na primeira pessoa, narrando causas e consequências inerentes a um final. Falamos da relação de Björk com Matthew Barney que durou uma carreira e que inspirou outros álbuns, com outros motivos e outras convicções. Mas o que se retira desta experiência introspetiva de Björk não são recomendações ou lições de vida, trata-se antes de uma banda sonora para ajudar a esfolhear o álbum com retratos de uma vida conjugal. Em Lionsong a islandesa introduz o tema: “Maybe he will come out this, Maybe he won't, Somehow I'm not too bothered either way”, o que prova que já foi tempo de I Miss You (1995). Björk poderia ter-se tornado uma mulher azeda e fragilizada, mas apesar da perda (e o fim de uma relação é sempre uma perda), enaltece-se num tema que certamente constará dos próximos greatest hits.

Tecnicamente é um álbum construído com linhas melódicas bem definidas para os instrumentos, sobretudo cordas, o que para além de ser o complemento para a voz que funciona por si só como o “primeiro violino”, é justamente a disponibilização de samples para remixes. As batidas são suaves e remetem-nos para um ensaio em torno de outros álbuns que eclodiram no seio da relação que agora termina.

Mas não é só de perda que o álbum trata, Vulnicura auxilia no exercício do recobro, erguendo a cabeça, com os pés orientados para o caminho da luz. A própria capa do álbum remete-nos para uma imagem divina, iluminada, que olha mais além, descobrindo nas profundezas um novo itinerário. Em Atom Dance, com Antony Hegarty (Antony and the Johnsons), ouvimos o refrão “When you feel the flow as primal love, Enter the pain and dance with me, We are each others hemispheres”, sendo esta, por si só, a mensagem de esperança e de reconciliação.

É sabido que Björk é uma espécie de dama das camélias do estio eletrónico, que absorveu o mundo há mais de 20 anos, mas a cantora faz parte do imaginário de uma parte dos que se deixam absorver, e ter um novo álbum, é ler mais um capítulo deste livro que não acaba, porque não queremos.

Vulnicura não termina na escuta, não ficou desacreditado com o lançamento precoce, não é só um álbum que enaltece as relações e o fim delas, é antes o começo de uma nova com muitas epístolas para evangelizar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A revisão do ano 2014


A habitual revista do ano vem tarde mas chega mesmo antes de 2014 terminar. Foi um ano com novas estrelas europeias, com muito futebol e Ronaldo nos tops, com Francisco Papa em glória para lá dos homens, com mortes no cinema, na literatura e por todo o lado, com Reis a abdicar e tantos a quererem reinar num mundo onde até aviões desaparecem...

Este foi um ano pobre em tempo para escutas, rico em álbuns e surpresas. Pessoalmente, um ano cheio e portanto com banda sonora marcante associada a cada momento que ajudou a compor este embrulho que agora deixo para trás.

Foi um ano marcado por regressos como o de Bryan Ferry, por álbuns fortes cheios de compromisso com o passado onde se bebeu influência e se transformaram os ritmos em novas batidas, em novos artistas e novas bandas. Como em tudo na vida, a mudança de um ano traz novidade e ambição para o futuro. O caminho da música, digo-o várias vezes, está encaminhado. Mudaram-se os tempos e as vontades e agora segue-se uma linha de sofisticação que marcará esta década. Em especial a música Portuguesa merece menções honrosas (várias) pela forma como os produtores e artistas têm feito as suas parelhas, dando forma a projectos muito interessantes, vingando num mundo competitivo e cheio de volatilidades como é a industria da musica.

No entanto, e como retrospectiva final, não posso deixar de anotar uma preocupação: deste ano não levo nenhum álbum que tenha ouvido até a exaustão, não levo aquele álbum que me vai acompanhar em sonhos e deambulações. Levo no entanto, alguns concertos e muita folia à volta da música. 

Como habitual pedi a alguns amigos com quem me perco em conversa sobre música para fazerem as suas escolhas. Ei-las:


Diogo Ai
1. Perfume Genius - Too bright
2. Chet Faker - Built on glass
3. Thom Yorke Tomorrow's modern boxes
4. Jessie Ware - Tough love
5. Future Islands - Singles
6. Erland Oye - Legau
7. S Carey - Range of light
8. You cant win charlie brown - Diffraction/Refraction
9. Sharon Van Etten - Here we are
10. St. Vincent - St. Vincent


Joana Freitas

1. Pharrell Williams - Girl
2. Skrillex - Recess
3. Dilated Peoples - Directors of Photography
4. The Roots - …And Then You Shoot Your Cousin
5. Coldplay - Ghost Stories
6. Sia - 1000 Forms of Fear
7. Freddie Gibbs & Madlib - Piñata
8. Atmosphere - Southsiders
9. D'Angelo and The Vanguard - Black Messiah
10. Flying Lotus - You're Dead!


Luís Moita 

1. BECK "Morning Phase"
2. THE WAR ON DRUGS "Lost in the Dream"
3. FUTURE ISLANDS "Singles"
4. ELBOW "The Take Off and Landing of Everything"
5. DAMIEN RICE "My favourite Faded Fantasy"
6. CARIBOU "Our Love"
7. SHARON VAN ETTEN "Are We There"
8. LISA GERRARD "Twilight Kingdom"
9. MARISSA NADLER "July"
10. PERFUME GENIUS "Too Bright"


Carolina Patricinio

1. Batida - Dois
2. Capicua - Sereia Louca
3. Keep Rasors Sharp - Keep Rasors Sharp
4. Dead Combo - A Bunch Of Meninos
5. TV Rural - EP Barba
6. For Pete's Sake - House
7. Júlio Pereira - Cavaquinho
8. Sharon Jones & the Dap Kings - Give the People What They Want
9. Beck - Morning Phase
10. The Black Keys - Turn Blue


Rui Ramos

1. Wovenhand - Refractory obdurate
2. The War on Drugs – Lost in the dream
3. The Soundcarriers –Entropicalia
4. Jad Fair and Danielson – Solid gold heart
5. Wildest Dreams – Wildest Dreams
6. Shellac – Dude incredible
7. Perfume Genius – Too bright
8. Jozef van Wissem & SQÜRL - Only Lovers Left Alive OST (2014)
9. Eels - The Cautionary Tales of Mark Oliver Everett (2014)
10. Gala Drop – II





Este complexo exercício a que já nos habituámos reforça a ideia de que não é fácil escolher. 

No entanto, teimo em fazer as minhas seleções que em muito simplificam a memória do que fica que, de forma seletiva, contribuí para a menor dispersão.







As minhas escolhas de 2014 vão para:

1. The War On Drugs - Lost In a Dream

2. Metronomy - Love Letters

3. Caribou - Our Love

4. Perfume Genius - Too Bright

5. Todd Terje - It's Album Time!

6. Beck - Morning Phase

7. St. Vincent - St. Vincent

8. Sharon Van Etten - Are We There

9. FKA Twings - LP1

10. Capicua - Sereia Louca



Melhor festival: Super Bock Super Rock Meco 2014

Melhor concerto: Oh Land no Super Bock Super Rock Meco 2014

Melhor tema-vício: "Under The Pressure" dos War On Drugs

Melhor remix: Metronomy - Love Letters (Soulwax Remix)

Menção Honrosa em Português: Sensible Soccers


















terça-feira, 9 de setembro de 2014

Banks: superior a modas

Este ano ficará marcado pela agitação Banks que poderá provocar, não tenho dúvidas.

Desde o início do ano que se tem revelado uma óptima protagonista nova cena r&b, denunciando aos poucos o "Goddess" - álbum estreia agendado para depois do Verão.

Pouco se sabe de Jillian Banks, mas é expectável que Banks venha a ter uma espécie de protagonismo ecléctico da moda.


Os ciclos de sobrevivência de uma sonoridade são cada vez mais curtos. No final de Abril, uma interessante reflexão publicada no Stereogum apontava o indie r&b como o “novo normal” e elegia Banks como uma das protagonistas dessa linha. A cantora de Los Angeles está para o r&b de cetim como Lana Del Rey para uma nova pop de baton vermelho quando surgiu. Não farei mais dissertações sobre Lana, apenas considero que não há paralelo. Banks soa melhor, eleva-se numa evidente intemporalidade, é mais poderosa e sobreviverá a qualquer tendência dos blogues da moda.

O álbum de estreia Goddess só chegará em Setembro mas os cartões de visita em formato single continuam a chegar. Depois do divino single que dá título ao álbum, a poderosa "Drowning" desce o bass e acrescenta valor à pop na voz de Jillian Banks. Se será efémera durante uma vida ou eterna durante um álbum, ninguém saberá. Estou certo que a melhor opção é ouvir Banks no sofá.

A minha escolha mais severa e séria deste contexto é o tema Brain, onde a morena dos cabelos compridos e do rosto interessante faz o seu ataque missivo numa voz limpa de pressões, wearing what you think is hard.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Sempre que NOS quiser


São 21H00 e as ruas do Cais do Sodré foram invadidas por uma onda de hipsters e similares que não é habitual. Este tem sido o lugar de eleição de um publico mais beto e relaxado com a música. O retrato toma forma na meia hora mágica onde lá atrás, no rio, o pôr-do-sol está agendado para a mesma hora.

Da antiga Estação Central dos CTT ecoam sons urbanos que agitam quem está à espera na longa fila que dá a volta ao quarteirão, na Rua da Moeda. A espera reflete o espírito de um festival novo, onde o trânsito não está cortado, e onde não há previsão de entrada ou de lotação.

Lá dentro Capicua. A dama de comas sobe mais uma vez a um palco de Lisboa e traz consigo o habitual: o rap/hip-hop de uma nova geração do Porto. Apresenta os temas fortes e capazes de conquistar uma plateia que não parecia rendida no início. Avança nos ritmos e nos scratching de D-One, mune-se da companhia de M7 e torna-se a diva da noite. A MC sensação percorre as suas letras mais intensas e completas, sempre em Português, provando ser a verdadeira Mestre-de-Cerimónias e uma Maria Capaz. O concerto, rápido, chega ao fim onde a deambulação com mãos no ar se faz com ”Vayorken” (Nova Iorque na linguagem de Ana Matos aka Capicua enquanto criança).



Satisfeitos e com uma multidão para enfrentar, há mais palcos para percorrer e conhecer. Deixa-se para trás a Central Station com a certeza de que será impossível recuperar o lugar que estava garantido.

No Largo de São Paulo tocam já os You Can't Win Charlie Brown. Como pano de fundo está a igreja, iluminada com cores quentes, como estava a noite. Os músicos partilhavam o palco com o logo da NOS que foi discreta na utilização da marca - cheirava a NOS mas não se sentia tensão ou ofuscação. A leveza da voz de Afonso Cabral, o autor da maior parte das letras, é o homem que canta mais e que encanta a multidão que ocupa todo o Largo, o quiosque e os poucos lugares disponíveis. Esta é uma banda sui generis com temas ecleticamente construídos e sonoridades genuínas. Composta por vários artistas que a solo se realizam, como é o caso de Luís Nunes (Walter Benjamin) ou David Santos (Noiserv), e que em grupo disfrutam do prazer de partilhar um palco. Sente-se a mística e a satisfação pessoal dos companheiros. Passaram por vários temas dos dois álbuns, mas destaco o “I've Been Lost” do Chromatic, álbum de 2011.


À hora marcada, estou à porta do Europa, são 22H30. Estranha-se entrar “tão cedo” no Europa. A casa dos afters-hours acolhe a dupla Octa Push. O Europa está composto. Há promoções nas imperiais - leve 4 pague 3, e a dupla portuguesa erradicada em Londres já está nos pratos. De imediato o espaço ganha um requinte underground dos becos de Londres. Há bonés, barbas, óculos de massa, calções, camisas floridas e uma enorme vontade de dançar ao som do DJ set que começa com temas mais conhecidos: “Françoise Hardy” com a voz de Alex Klimovitsky ou “Please, Please, Please”, este com a voz sensual da portuguesa Catarina Moreno. Não houve vozes ao vivo, mas houve uma energia contagiante que dominou a noite.

Lá fora a entrada estava bloqueada. Sessões esgotadas por todo o lado. A enchente espera que uns desistam para poderem entrar nos vários espaços com concertos. Já não há filas organizadas para o Music Box ou para o Europa, a multidão é agora um mar de gente espalhado pela Rua Nova do Carvalho. Às 00H30 Mirror People pega nos pratos no Music Box, mas é impossível conseguir entrar. Imagino que tenha sido uma experiência refrescante e diferente das habituais no Incognito, sobretudo agora que Rui Maia lançou “Obscure Disco Edits”.

Os desistentes fazem a última deambulação pelas ruas, ocupam cafés, bares decadentes e o quiosque recuperado. O Cais do Sodré vive uma noite única. Comemora a sua transformação e veste-se de sucesso. Ontem provou-se uma vez mais que Lisboa vive e deixa viver, respira e deixa respirar. Lisboa merece a música portuguesa que tem.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Todd Terje: é tempo de álbum!

É inevitável associar Todd Terje a boa música de dança. Tem feito a sua carreira de forma transversal focando-se na nova música e fazendo dela os remixes que passam nas principais pistas de dança um pouco por todo o mundo.

Com apenas 33 anos, Terje Olsen aka Todd Terje é visto com um dos principais DJs da actual cena eletrónica, disseminando a magia das pistas escandinavas (Noruega) por todo o mundo, em especial pela Europa. Criou um misticismo à sua volta que se afirmava em cada momento de lançamento de mais uma versão que fazia para nomes como Franz Ferdinand, Lindstrøm e até Robbie Williams.

O perfil eclético e sintomático, faz com que Todd Terje seja o experimentalista num laboratório simples onde tudo pode acontecer. O seu estilo é único e genuíno assentando em ritmos quentes, muitas vezes tropicais, a eletrónica pura do dub com uma forte dose de disco.

Apesar da volatilidade associada aos remixes, Todd Terje chega a 2014 com a convicção de que precisa de fazer história na sua carreira - "It's Album Time". Com um título sugestivo e uma capa menos boa, Todd Terje apresenta-nos temas originais dignos de vénia. Pelas pistas foram rodando "Inspector Norse" ou "Strandbar" anunciando o inicio de uma boa época festiva da música de dança. Mas a minha vénia vai para o tema "Johnny and Mary", de Robert Palmer, agora com a participação de Bryan Ferry, que nos brinda com a voz de outros tempos. Este é um tema tão completo que se direciona para a lista dos melhores do ano, ou pelo menos dos mais audíveis. 


"Its Album Time" é um disco para ter à mão e rodar, em vinyl de preferência, sempre que seja necessário - é tempo de festas e jantares de amigos acompanhados com batidas de pulsão suave.